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CRÍTICAS - 38º FENATA

  • Por VALMIR SANTOS (Jornalista e crítico convidado pela organização do 38º Fenata)

Peça: O BECO
Autor: Jorge Henrique Lopes
Direção: Sandro Maranho
Grupo: Cia Fantokid’s Teatro de Bonecos
Cidade: Maringá – PR
Horário e Local da apresentação: 04/11 - 22h Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 50 minutos
Classificação: adultos e jovens a partir de 12 anos

Falsas saídas prejudicam “O beco”

O casal de velhos de “O beco”, espetáculo da Companhia Fantokid’s Teatro de Bonecos, de Maringá, nos remete de pronto ao universo de Samuel Beckett, o teatrólogo irlandês que revolucionou a linguagem da cena implodindo as convenções narrativas e convidando o ator a materializar no palco aquilo que transcende sua presença de carne e osso. É o caso de “Fim de jogo”, que conforma em bases metafísicas e existencialistas a relação de poder entre os protagonistas Ham e Clov e, deles, com dois personagens paralelos enterrados cada um em seu latão, mostrados do tronco para cima quando de lá emergem.
Também o casal do grupo de bonecos passa o tempo todo lá dentro dos seus nichos, dando a entender que não têm pernas e fazem dali sua casa, dividindo espaço do latão com o lixo de dentro e o de fora. Na montagem, a segunda apresentada na quinta-feira, noite de abertura do 38º Festival Nacional do Teatro, o Fenata, esse lixo é assumido como mote do espaço cenográfico, trasbordado aos montes no centro do palco para comunicar a ideia de um lixão. Afinal, a dramaturgia de Jorge Henrique Lopes circunscreve esse lugar como eixo da precarização da vida urbana. O território sublinhado de maneira tão ostensiva, com a montanha realista de detritos encimada pelos dois latões, indica desde logo o caminho do excesso na concepção do espetáculo encenado por Sandro Maranho, um projeto para teatro adulto inédito na trajetória de pelo menos 14 anos de dedicação ao teatro de animação pelo núcleo artístico familiar do noroeste paranaense.
Notamos o apuro na manipulação dos atores-criadores – são dois por bonecos. Eles fazem de Gertrudes e Gregório, os simpáticos velhinhos, a extensão de seus corpos. Idem para o cuidado na confecção desses seres em espuma que mimetizam a fisionomia humana. O pecado de “O beco”, porém, é não produzir síntese, condição fundamental para a arte que abraçam. O texto estorva a si mesmo ao sinalizar um percurso intimista e depois perder-se em quadros desviantes, em situações que talvez pretendam camadas oníricas dos personagens e resultam apenas dispersão.
A fragmentação pode constituir um recurso poderoso na cena contemporânea, desde que, paradoxalmente, construa unidade por meio da linguagem a que se propõe. Na breve conversa com o público após a sessão, no auditório B do Ópera, os integrantes da Fantokid’s demonstram em seu discurso dominar o ofício, calejados pelo teatro para crianças e agora tateando o espectador adulto. Esse trânsito é evidenciado no didatismo que os manipuladores imprimem nas vozes dos bonecos, no manejo de objetos fosforescentes e nas citações a hits de rádio tão descartáveis quanto o material que sustenta a cenografia. A passagem integral com “New York, New York” e a evocação de musicais da Broadway é outro exemplo de escape que põe por terra o contraste que se quer alcançar com o ratinho focado ao final da canção dançada por um boneco feito de material reaproveitável.
Apesar dos problemas estruturais apontados, “O beco” tem lá suas pérolas que infelizmente podem ser ofuscadas. Há momentos em que a magia se dá com os mínimos recursos, como quando Gregório põe um chapéu ou dá asas a uma cuia de chimarrão com objetos encontrados no lixo. Ou no detalhe da bandeirinha do Brasil na beira do latão, um grão de poeira entre os restos que nos diz muito sobre a realidade social brasileira. O texto de Lopes partiu justo de um casal que vivia de fato num beco, à margem da vida. A saída para o grupo é como traduzir em cena a densidade do microcosmo de Gertrudes e Gregório, o enfrentamento da finitude, a nostalgia do amor que os uniu em meio à miséria. A montagem acena com tudo isso ao mesmo tempo em que insiste em nos escapar. Restringir o silêncio aos últimos segundos, imagem contundente sob luz em resistência, é possivelmente um dos ruídos. Falta silêncio visual, silêncio sonoro, silêncio interior.

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Peça: AS ESPERTEZAS DE ARLEQUIM
Autor: Roberto Innocente
Direção: Roberto Innocente
Grupo: Arte da comédia
Cidade: Curitiba - PR
Horário e Local da apresentação: 05/11 - 10h - Calçadão
Duração: 50 minutos
Classificação: livre

“Arlequim” visita o clássico com convicção

Com três anos de estrada, o Grupo Arte da Comédia, de Curitiba, vai aos clássicos com convicção. O gênero teatro de rua e seus matizes medievais da Commedia Dell”Arte são sustentados com veemência em ‘As espertezas de Arlequim”, da preparação do elenco aos figurinos. O autor e diretor Roberto Innocente passeia pelas máscaras principais do teatro popular, a começar pelo bufão que aparece no título. O servo Arlequim, um palhaço de mancheia, faz contraponto aos desmandos do patrão Pantaleão, um avarento. Ambos morrem de amores por Ricciolina, o coração da história de amor com final feliz. Mais universal impossível, a maneira de contar essa história é que são elas.
O espetáculo é bem-sucedido e sustenta a roda no calçadão central da cidade, do início ao fim, porque tem bons atores que o garantam. Guto Scheremetta encarna o bufão com todo o requinte da ação física, do samba no pé e da malícia no olhar e na língua que dá vida à meia-máscara do arquétipo que carrega no rosto e no corpo por inteiro. É o motor do espetáculo, como gira a dramaturgia. Alaor Carvalho ainda conta em seu favor o tipo físico, a altura que já lhe dá um Pantaleão, jovem ou velho arqueado, um contraponto visual com o baixinho que faz Arlequim. Ambos se desdobram em outras figuras masculinas ou nem tantas, como o Doutor e o Capitão. No meio deles, Susane Bueno intercala docilidade e jogo de cintura para virar Bruxa Bela e dar conta dos pretendentes.
A brincadeira do teatro de rua transcorre com despojamento, uma lona com cerca de dois metros de diâmetro. Três banquinhos de madeira também fazem às vezes de “camarim”. O público vê a mutação dos atores, da galhofa mascarada à neutralidade do rosto que olha o colega em cena ou se reveste do que virá. Esse teatro revelado é um dos trunfos. Outro objeto de cena, uma pequena escada, é transformado em boca de jacaré ou casco de tartaruga diante das demandas do vai e vem de tempos e lugares. Uma moldura, também de maneira, desenha as janelas e borra fronteiras com muita facilidade, sem desprezar o caráter multifocal da arena.
Os senões vão para a projeção de voz que costuma se esvair quando o intérprete se põe de costas. Dicção e enunciação são capítulos a serem aprofundados pela Arte da Comédia, sob risco de prejudicar a gestualidade cômica do seu trio. Scheremetta, Carvalho e Bueno padecem ainda de ansiedade refletida não só no ritmo do espetáculo como no acabamento da ação e na valorização mais delicada do uso da meia-máscara. Um aceleramento que pode ser trabalho em favor do que já conquistam em sincronia no centro e nas bordas do círculo – o que não é pouco.

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Peça: COISAS DE MENINO BONECO
Autor: Rodrigo Romão Batista
Direção: Rodrigo Romão Batista
Grupo: Cia Clara Teatral
Cidade: Mogi das Cruzes - SP
Horário e Local da apresentação: 5/11 - 14h - Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 45 minutos
Classificação: livre

Os sentidos cênicos da visão e da escuta

Todo artista lida com um problema-chave: dar forma ao plano das idéias. “Coisas de menino-boneco”, da Companhia Clara Teatral, expõe o quão a travessia é difícil. O núcleo que soma cinco anos de atividades em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, está no meio dela. Seu espetáculo cativou a plateia nos primeiros minutos da sessão no Auditório B do Cine-Teatro Ópera, maioria tomada por crianças com menos de 7 anos, mas não conseguiu interessá-las até o final daquela que se revelou uma longa jornada do protagonista em seu dia de exploração imaginária adentro. Uma encenação ensimesmada como o menino em seu quarto.
Entra na conta desse vão o mergulho radical na penumbra permanente que turva as minúcias de movimentos e gestos de um boneco de pano que mede centímetros. A Companhia Clara trai seu nome quanto à clareza daquilo que vemos. A medida da sua ambicionada poesia de cena nos é dada, sim, pela escuta: a musicalidade, palavras, sonoridades em sopros, cordas e onomatopéias que dão o verdadeiro sentido desse projeto artístico e nos faz crer na potencialidade de alcançar o outro e fazer-se luz.
Numa bancada em cima do palco, a dupla de manipuladores Maurício Sterchele (bonequeiro) e Caacá Novais (música) dá vida ao violão e ao ser de pano. Lanternas e refletores mínimos desenham essa placenta, uma atmosfera obscura da qual auscultamos, ao menos, o coração - creditado em grande parte à direção e à composição musicais de Meyson, cuja sensibilidade plasma.
O texto de Rodrigo Romão Batista e a sua direção coassinada com Thalita Benigno investem alto na carga simbólica e no experimento técnico do quanto menos luz, melhor. “Coisas de menino-boneco” traz referências ao teatro de sombra sem que este seja o seu principal suporte. A narrativa, no entanto, deriva toda ela do boneco que oculta. Ignorá-lo à luz da relação com o público, como a montagem nos faz supor, transparece a falta de afinação com a razão de ser da obra. Eis o paradoxo que distancia o espectador. O discurso visual é mais teórico que animado, boicota a plasticidade em que navega. Talvez essas opções digam respeito a uma pesquisa para mares adultos, mais férteis aos conceitos de risco e ruptura entrelidos. Ajustar os focos das demandas mirins sobre o que se vê com o que se ouve – e isso passa ao largo da infantilização vocal - pode levar esses criadores ao longe na dimensão lírica que intentam.

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Peça: A FOLIA NO TERREIRO DE SEU MANÉ PACARÚ
Autor: Danilo Cavalcante
Direção: Danilo Cavalcante
Grupo: Mamulengo da Folia
Cidade: São Paulo – SP
Horário e Local da apresentação: 6/11 - 10h - Calçadão
Duração: 50 minutos
Classificação: livre

Arrocha que lá vem a folia das vicissitudes

O profano em sua extensão mais festiva, como a borrar as noções de bem e de mal no que há de mais humano em cada ser, é celebrado com alegria contagiante no mamulengo ao pé da letra que aportou na programação do Fenata. “A folia no terreiro de seu Mané Pacaru”, por obra e graça de Daniel Cavalcante e Trio Agrestino, todos sob o guarda-chuva do Grupo Teatro Mamulengo da Folia, de São Paulo, conectou o calçadão central de Ponto Grossa com as raízes do cômico popular do Nordeste do país, cuja rica tradição é visitada com propriedade: todos os envolvidos, do manipulador aos músicos de forró, claro, possuem ascendência nordestina, brincaram e viram brincadeiras assim desde criança. Daí o talento para interagir calorosamente desde o prólogo, cerca de 15 minutos antes de desenhar-se o círculo de espectadores na semiarena da empanada, a barraca de pano que abriga os bonecos no alto, dançando suas histórias regidas por intervenções do acaso.
Nascido no agreste pernambucano, em Canhotinho, e radicado na capital paulista desde o início da década, Cavalcante é habilidoso na condição de mestre de cerimônias, de bufão e de bonequeiro. Sob um roteiro básico, que fala do casamento da filha de Seu Mané Pacaru, Marieta, com o vaqueiro Benedito, união ameaçada pelo Diabo, o mamulengueiro incorpora aos quadros da narrativa adultos e crianças do público, convidando-os a relacionar-se diretamente com os bonecos de luva e de madeira. Entram em cena também tipos como o médico, o padre, o militar, a cobra, etc. Os músicos forrozeiros são outros interlocutores do início ao fim. Cavalcante permite-se também brechas para atualização do jogo, explorando o espaço no entorno da empanada. Logo na primeira cena, ele circula pelo calçadão com um carrinho de roda que leva um boneco. Perto do final, manipula um bonecão, um bicho de seus dois metros com corpo de pano, cabeça de madeira e boca gigante.
Para aludir a um dos instrumentos do Agrestino, a sanfona, “A folia no terreiro de Seu Mané pacaru” consegue ser flexível sem usurpar a prática do mamulengo. Encontra musicalidade, sotaque próprio. Conversa com a ancestralidade popular, enreda e “arrocha” o espectador contemporâneo entre a modernidade e o arcaico, alcançando e rindo das vicissitudes universais. Arrocha, como diz o bordão, com ritmo, humor e malícia par todas as idades.

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Peça: AS INSCRÍVEIS HISTÓRIAS DE JOE EM: CORAGEM PRA QUEM TEM MEDO
Autor: A Cia
Direção: Cidval Batista Jr
Grupo: Companhia Etc e Tal Artes Cênicas e
Manipuladora de Formas
Cidade: Itajaí – SC
Horário e Local da apresentação: 7/11 - 15h - Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 40 minutos
Classificação: a partir de 5 anos

A incompletude preenchida

Nos bonecos da Pedagogia Waldorf, a indefinição dos traços faciais estimula a criança a identificar-se de acordo com sua capacidade de fantasiar o amigo, no caso, preencher o rosto “invisível” pelo qual se deixará afetar profundamente. A Companhia Manipuladora de Formas Etc. e Tal, de Itajaí (SC), nos faz lembrar do conceito alemão de aprendizagem surgido no século XX e disseminado, inclusive, por brinquedos baseados na incompletude. Por extensão, incompletude ou falibilidade que são da vida. O espetáculo As incríveis histórias de Joe em: coragem pra quem tem medo apóia-se em pesquisa refratária ao lugar-comum quando o assunto (e a forma) é teatro para crianças. O título cinematográfico (e, afinal, há uma pitada de thriller em jogo) pode enganar a quem deduz a busca por efeitos. A criação respeita e estimula a inteligência de seu público. Convoca-o a rechear a trama simples com o imaginário.
É um roteiro curto, bolado coletivamente pelo grupo e anunciado com duração de 40 minutos que atinge pouco mais da metade disso. Subverte a noção dos brinquedos assassinos e mostra como seus donos, as crianças, podem perverter tanto quanto. Em suma, o menino Joe zoa com os bonecos e objetos antes de dormir um sonho em que confronta com esses seres animados, às vezes em clima de suspense, com os quais perceberá o quanto é importante cuidar e ser cuidado. Para narrar essa história, a Etc. e Tal abre mão da palavra e concentra-se na manipulação revelada em todas as suas instâncias: os atores cobrem todas as partes do corpo e surgem com máscaras não-convencionais, com um olho e uma boca, seres extraordinários, desproporcionais, que sopram as venturas e desventuras de Joe. Um trabalho artesão em todos os sentidos, em que um tapume multiforme esconde, revela, ampara o teatro de sombra feito tela de videogame e tem cenas para além do seu marco, explorando outros planos da ação protagonizada pelo trio de atores-manipuladores Alexandra Ferreira, Flaviano Koch e Cidval Batista Júnior, este também diretor.
Há alguns escorregões em As incríveis histórias de Joe em: coragem pra quem tem medo. A trilha sonora insiste continuamente em endossar o que já está sendo contado. Falta acabamento na movimentação do tapume cenográfico que deixa objetos pelo caminho e cujas frestas vazam o vaivém dos manipuladores, quebrando a magia que eles mesmos construíram. O encurtamento da duração quer dizer, quem sabe, que os artistas absorveram de tal maneira os mecanismos da representação que agora precisam dilatar o gesto, respirar fundo, valorizar o tempo de voo do dragão, enfim, lidar com essas questões práticas com o mesmo grau de elaboração conceitual proposto.

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Peça: A FARSA DO ADVOGADO PATHELIN
Autor: Anônimo
Direção: Roberto Rosa
Grupo: Rosa dos Ventos
Cidade: Presidente Prudente – SP
Horário e Local da apresentação: 7/11 - 17h - Parque Ambiental
Duração: 65 minutos
Classificação: livre

Peça: SALTIMBEMBE MAMBEMBANCOS
Autor: Grupo Rosa dos Ventos
Direção: Grupo Rosa dos Ventos
Grupo: Rosa dos Ventos
Cidade: Presidente Prudente – SP
Horário e Local da apresentação: 8/11 - 10h - Calçadão
Duração: 60 minutos
Classificação: livre

Palavra: tinha um circo no meio da rua

O quinteto do Grupo Rosa dos Ventos não faz muito barulho por nada. Faz por tudo, com sua banda de um homem só, com a escatologia pelos cotovelos. E ninguém sai indiferente. Os dois espetáculos apresentados em Ponta Grossa são a súmula da pesquisa de 11 anos que ambiciona cruzar as linguagens do circo e do teatro de rua. Por mais que pareçam próximas na curva ancestral das artes cênicas, elas pedem especificidades e são exigentes com aventureiros que pensam que podem encontrar uma terceira via com um estalar de dedos. O núcleo, ao contrário, aventura-se com consciência de causa e dá notícias que colherá mais frutos com a maturidade que bate à lona.
A montagem mais recente espicha para a farsa e provoca um ruído bom. Um clássico das praças e calçadões em todas as cidades do planeta, espécie de estágio para quem quer dar o ar da graça em território alheio, “A farsa do advogado Pathelin” não se encaixa de todo à escrita corporal e sonora do Rosa. Sob comando do diretor convidado Roberto Rosa (as flores se atraem!), cofundador da Companhia de Teatro Fábrica São Paulo, fica patente a introdução aos caminhos dramáticos, a necessidade de contar uma história com um fio mais perceptível e não uma colcha de esquetes.
Não tem jeito, a narrativa se esvai em muitos momentos na performance de Felipe Madureira, Fernando Ávila, Gabriel Mungo, Tiago Munhoz e Robson Toma. Os quiprocós do protagonista, os golpes que dá e leva no afã de faturar algum, tornam-se “verborrágicos” diante do imperativo da imagem com as evoluções terrena e aérea na estrutura de ferro multiforme, as acrobacias, malabarismos, pernas de pau, além da interação direta com o espectador focando sempre o universo do baixo ventre revirado de ponta-cabeça. Lá pela metade da apresentação, “Pathelin” vira pretexto para o grupo passear desenvolto pela comicidade. É a ela que o público responde de pronto, e a crítica à falsa moral do poder e da política, nos planos públicos e privados, o vetor mais corrosivo da farsa, não chega aos pés da força da dramaturgia que visita.
O plano das ideias é dissolvido pela extrema dificuldade dos atores em conciliar a fala com a crispação da música tocada ao vivo em prejuízo da escuta; pelo microfone individual que nos distancia ainda mais da narrativa. É de se perguntar: microfone para quê se, quando falha, ouvimos perfeitamente a voz humana? Resta a energia dos números circenses, das técnicas bem ajambradas no jeito Rosa de dizer a que veio. Talvez a criação de uma dramaturgia própria dê mais unidade à linguagem que o grupo pretende. Adotar procedimentos que valorizem o registro da palavra, sua enunciação e clareza, sem que ela reine; antes, dialogue com mais peso junto aos demais elementos constituintes da cena. Para além do verbo, há o poder de intervenção no espaço que sugere mais convicção do que insinuada na sessão do Parque Ambiental “sem árvores”, na blague inteligente de um dos palhaços.

Na criação coletiva “Saltimbembe Mambembancos”, o picadeiro é absoluto. Aqui, os palhaços nomeados Madureira, Dez pras Sete, Beterraba, Custipil de Pinoti e Nicochina vão à forra na testosterona e na seretonina, para delírio da roda e do entorno mais expandido: janelas e varandas disputadas nos edifícios do calçadão. Encaixa-se plenamente o estilo do quinteto. Sua musicalidade orgânica: Nicochina é o pulmão incidental na execução ao vivo, onomatopéias e arranjos. Seu radicalismo nas citações escatológicas, sem esmorecer um segundo da imoralidade que a plateia partilha de modo explícito ou subterrâneo. Um despudor que diz respeito à máscara do palhaço, seu estado provocador sem mesuras. É ela, ainda que borrada grosseiramente no rosto dos artistas, fiéis ao espírito roto do mambembe que evocam, é essa máscara que dá liga aos quadros circenses exímios, replicados como lupa do que vemos em “Pathelin”, com o devido respiro interativo, se é que se pode dizer assim. O credenciamento da maturidade artística do núcleo veio pela bem- sucedida inclusão de um intruso, daqueles que frequentemente atravessam a cena ao ar livre. Um homem de cabelos grisalhos pisa o círculo azul com gestos abruptos, dando a entender que a cena seguiria sob tensão ou seria interrompida a qualquer momento. Nada. O sujeito ganhou função, figurino e chapéu no vaivém da valsa. O Rosa dos Ventos dissipou a preocupação dos organizadores do Fenata. Os atores conduziram o espetáculo sem deixar a peteca, ops, os pinos caírem, virtuosos que são. Alinharam-se ao autointitilado convidado na hora dos agradecimentos. E, para coroar, lhe atribuíram o título de diretor do espetáculo. Esse gesto generoso diz muito sobre outra face oculta do grupo: seu potencial para contracenar com o lirismo do palhaço, tocar outras zonas do eu feminino para enriquecer as leituras de sua presença no meio do caminho. Uma pedra também é poesia.


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Peça: LÁ, NO FUNDO DO MAR...
Autor: Criação coletiva - Apatotadoteatro
Direção: Cacá Corrêa
Grupo: Apatotadoteatro
Cidade: Florianópolis - SC
Horário e Local da apresentação: 8/11 - 14h - Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 45 minutos
Classificação: livre

O aquário e a gota d’água

Um dos perigos do teatro de animação é cair na ilustração. Bonecos e objetos que redundam aquilo que o espectador está vendo. Literais. “Lá, no fundo do mar...”, da Companhia Apatotadoteatro, de Florianópolis, leva a forma e o conteúdo ao pé da letra. Transforma o palco no espaço cênico de um aquário, tira o oxigênio do sentido presencial da arte ao vivo, a comunhão. Sua escritura cênica, anunciada como criação coletiva, não introduz camadas. É como se o espectador fosse separado do vidro em que observa as figuras marítimas, o cardume, as algas, o cavalo-marinho, o tubarão cuja proporcionalidade até avança para o primeiro plano. No mais, a experiência remete a um filme em 3D sem cumpri-la: é da natureza do teatro alcançar essas outras realidades por meio dos seus elementos próprios, um roteiro ou uma dramaturgia que os amarrem para libertar o imaginário do qual os atores nos dão fé.
Diante desse trabalho, o sentimento é de anestesia, uma plasticidade de apelo publicitário, como a vender a ideia da reciclagem que o grupo assume no panfleto de mediação com o público. A trilha musical mescla o cancioneiro do mar com a surf music. Anacronismo pop. Nada em cena nos dá pistas dos manipuladores Carol  Boabaid e Gustavo Bieberbach, corpos e almas de artista ofuscados.
O tratamento do material de fonte atribuída ao pesquisador Franklin Cascaes não recria ou referenda o estudo da cultura açoriana que ele legou; não compõe uma poética. Mesmo quem não a conheça de perto, o lugar-comum não nos convence. O corte seco de luz ao final rompe a saturação de imagens na penumbra e expõe a sem-cerimônia do projeto ao ignorar o rito, a transição. A Companhia Apatotadoteatro frustra ao tentar mergulhar no oceano teatral que pode nos levar ao longe com apenas uma gota.

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Peça: JOÃO COME FEIJÃO
Adaptação: Mariza Basso
Direção: Mariza Basso
Grupo Mariza Basso Formas Animadas
Cidade: Bauru – SP
Horário e Local da apresentação: Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 50 minutos
Classificação: a partir de 3 anos

Aos que desejam vê-lo, o universo mora nos detalhes

Contos de fada são imanentes ao teatro para crianças. Conseguir recriá-los para a cena com a verdade que só os olhinhos são capazes de fisgar é feito desejado por todo artista. “João come feijão”, da Companhia Mariza Basso Teatro de Formas Animadas, de Bauru, tem fome de dar conta de todo o leque de linguagens que expõe. E deixa de saborear a fundo uma ou outra que já estaria de bom tamanho, se sorvida com esmero, para iluminar o clássico do inglês de Joseph Jacobs, “João e o pé de feijão”. Os bonecos, os objetos e a narração de história são suportes frágeis para a adaptação assinada pela também diretora e atriz que dá nome ao grupo do noroeste paulista. Os bonecos de pano do menino do título e de sua mãe são os protagonistas que a manipulação de Mariza Basso e Ezequiel Rosa não nos dão a ver com as respectivas auras, por assim dizer, porque passam por eles de forma ligeira. O tempo é maltratado em todo o espetáculo: o tempo do gesto, o tempo da respiração, o tempo das figuras, o tempo da neutralidade dos atores-manipuladores, o tempo da modulação da voz narradora, etc. A imagem que fica na retina é a dos artistas mecanizados no trato com os bonecos e objetos, tornando inexpressivos os sentimentos. Falta delicadeza ao registro de manipulação tornado refém da contação. No afã de narrar, a montagem supervaloriza a palavra e torna obscura aquela que seria a sua matéria-prima: a animação. O texto reitera o que objetos e bonecos poderiam mostrar, mas seus criadores não ajudam, atropelam as boas ideais. O fio da fábula está preservado, ou falado, melhor dizendo, transporto para a banca tradicional de feira onde um vendedor ambulante negocia as peripécias de João, um enredo que envolve sua mãe e a vaca leiteira que sustenta a família. Já a capacidade de transportar o público a diversos instantes e lugares da ação, como o palácio, a visão do gigante, o tronco que ascende ao céu, esses “detalhes” foram traídos pelo projeto artístico. João estava siderado pela vida material, podemos deduzir, ele que fora mobilizado pela falta do que não imaginava ter, até os pés no chão lhe mostrarem o quanto as pessoas e o mundo moram nos detalhes.

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Peça: O QUADRO DAS MARAVILHAS
Autor: Jacques Prévert
Direção: Ângela Finardi
Grupo: Companhia de Teatro de Repertório da Univille
Cidade: Joinville - SC
Horário e Local da apresentação: 9/11 - 10h -Calçadão
Duração: 55 minutos
Classificação: livre

Coreto arrumadinho pede bagunça

“A gente tem que mudar os objetos de lugar”. Um personagem. “Tudo está no seu devido lugar”. Outro personagem. O dilema da montagem de rua “O quadrado das maravilhas”, com a Companhia de Teatro Univille, de Joinville, é saber se faz palco na rua ou rua no palco. O espaço configurado no calçadão central de Ponta Grossa é semiarena com direito a coxia – nenhum dos pedestres passa atrás da área reservada só aos atores nas trocas de figurinos, uma reserva territorial em espaço público que não atina com a determinação mais gregária dessa arte milenar. A cenografia de fato vem a baixo, no encerramento, quando a nobreza desmoraliza de vez. Até lá, porém, a roda em meia lua já desistiu da história que inspira curiosidade pelo mote, o atemporal conflito de classes, e pelo colorido suntuoso dos figurinos, adereços e maquiagens sem contraste com macacões de operários em texturas igualmente caprichadas.
Capricho pode ser o xis da questão. O núcleo artístico precisaria bagunçar mais esse coreto entre o campo e a cidade, pôr a mão na graxa com o levante popular para realçar a crítica e o humor destilados pelo poeta francês Jacques Prévert. Este foi beber no espanhol Miguel de Cervantes. E ambos (a)talhados pela adaptação catarinense com dramaturgia e direção de Ângela Finardi. A proposta conceitual, bem embasada, não encontra eco nas escolhas da direção. Nenhuma nesga de vertigem cômica no elenco de 14 pessoas, um ator ou atriz que brandisse as bandeiras políticas com o fervor artístico/anárquico que a rua concede aos que a encaram. Está tudo demasiado arrumadinho.
Notam-se a dignidade e a atitude na postura da companhia, como entoa o coro, finalmente mais entusiasta nos segundos finais. Mas as boas intenções não movem moinhos. No contexto da produção brasileira, é um luxo que Joinville fomente uma equipe numerosa, inclusive técnica, e inclusive em âmbito universitário, para atuar fora das convenções do edifício teatral. “O quadro das maravilhas”, no entanto, ainda não desgarrou da relação frontal do palco italiano para ousar ao ar livre e ser gauche na vida e libertário na cena.

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Peça: PEQUENAS COISAS
Autor: João Araújo e Verônica Gerchman
Direção: João Araújo
Grupo: Morpheus Teatro
Cidade: São Paulo – SP
Horário e Local da apresentação: 8/11 - 22h - Cine-Teatro Ópera – Auditório B
Duração: 55 minutos
Classificação: adultos e jovens

Ateliê de existir

Assistir ao repertório de um núcleo artístico é tornar-se íntimo dele, perceber entranhas nem sempre identificáveis num primeiro encontro. A trinca de espetáculos do Grupo Morpheus Teatro, de São Paulo, reflete o salto que a produção brasileira de formas animadas deu a partir dos anos 1990. Da tradição surgida na década de 1970 - caso do Giramundo de Belo Horizonte e do Mamulengo Só Riso de Olinda -, passando pelos contemporâneos Sobrevento, Companhia Trucks, XPTO e Caixa de Imagens, para citar alguns coletivos de São Paulo, os criadores esquivam-se da infantilização e arriscam-se em investigar outros caminhos para a manipulação, a dramaturgia, seu tema e como encená-lo sem medo de que vá agradar mais a adultos ou crianças, muitas vezes encontrando o meio termo, resposta que vem do experimento.

A comoção do público em plena noite de segunda-feira no Ópera, sessão das 22 horas, atingiu a dimensão do sagrado manifestada de quando em quando no cotidiano dos fazedores e espectadores das artes cênicas. Um homem, um boneco, e tudo se fez em “O princípio do espanto”, obra-prima com a qual o criador, ator e manipulador João Araújo circula desde 2002 e quatro anos depois conformou o Morpheus com seus pares. Trata-se de uma criação de traços autobiográficos comunicada com a sofisticação de um luthier, uma capacidade incrível para distanciar-se do discurso ególatra sobre o vazio e torná-lo visível por meio do boneco confeccionado pelo artista sobre uma base de resina branca, talvez a plasticina. Um ser sem boca e sem olhos, visto de perto. E da perspectiva da plateia, durante a apresentação, um rosto vincado pela dor e pela delícia de ser e estar no mundo.

Robertinho, como Araújo batiza seu boneco, é extensão da pele de seu manipulador, sua respiração boca a boca para suportar o fôlego da montanha-russa emocional. Estão em pauta o desnudamento diante do espelho, os sentidos da espiritualidade e até a desconstrução do amor romântico na relação uma terceira figura, a moça que desabrocha da metamorfose de um espanador.

Falamos em respiração. Araújo manipula as costas do boneco com a boca. Balbucia, ofega, tartamudeia. As mãos e o corpo todo do ator é colocado sob o mesmo (im)pulso do boneco, alargando a território do íntimo para além das raias em que são mantidos criador e criatura. A dramaturgia põe os olhos vivíveis e invisíveis sob tensão e sob ternura. A consciência das sobras interiores leva o boneco ao confronto direto com aquele que lhe assopra a vida, reage com arroubos físicos que elevam a voltagem do espetáculo que põe a audiência em suspenso.

Em “Pequenas coisas”, a triangulação de Araújo com outros atores-manipuladores, Verônica Gerchman e Yuri de Franco, amplia horizontes na sequência de quadros de alumbramentos tocantes à solidão, à cerimônia de adeus, ao regateio do desejo. As fisionomias, atitudes e desenhos d’alma estão mais delineados. Duas cenas. O maestro com a pungência do rito diante da orquestra e a serenidade diante  da morte. A busca de afeto e reconhecimento pelo toque entre um velho e uma criança, um abraço fraternal numa sociedade condicionada pela desconfiança do outro. A angústia da espera de uma mãe que ajeita a casa e o coração para recebê-la, ao que tudo indica, em vão, voando alto em pensamentos verbalizados em off.

Essas células independentes, às vezes breves, são intercaladas com suavidade de uma cena a outra, uma dinâmica de revelação da espacialidade do palco que também é o esvaziamento das tensões – um vácuo que tem a ver com o preenchimento de energia na simbiose boneco-manipulador-espectador.

Já “Pés descalços” é a face Morpheus para crianças, ou nem tanto. Incorpora outras duas integrantes ao elenco, Dani Boni e Luana de Lucca, além de valorizar a música ao vivo, o duo violão e voz. A incomunicabilidade retorna agora na semente da amizade entre um menino e uma menina que brincam no tanque de areia do parque público. O espetáculo reafirma a presença do ator de neutralidade tênue na hora de manipular, como se esconder também fosse um opção forçada. Essa linha tênue entre mostrar ou não independe da capacidade da equipe de convencer sobre os gestos e sentimentos em jogo.

No afã de exibir um zoom no entorno daquela viagem das crianças que iniciam uma amizade, o Morpheus dá um passo ousado em relação à ação física dos atores, um parênteses entre o início e o fim do espetáculo. O prólogo desequilibra porque exigira um ator mais vocacionado para representar, o que não parece o caso do quinteto que arrebata justo na contundência com que lida com os bonecos a quatro ou seis mãos, lá e cá, dançando entre os pés na areia, os objetos satélites e o diálogo cativante entre esses anjos do jardim da infância. Quando “vestem” a máscara humana, o desnível é flagrante, periga resvalar no patético – e quem sabe foi essa a intenção.

Enfim, um passeio por três espetáculos sob o signo introspectivo da manufatura Morpheus Teatro, coerência estética, inovação e obsessão pelas formas animadas e, sempre que possível, construindo momentos de epifania.

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BALANÇO GERAL

Público formado credencia Fenata a ousar mais

Foi minha primeira vez no Fenata, o Festival Nacional de Teatro que chegou à 38ª edição em Ponta Grossa. Carrego a lembrança do público local, sua disponibilidade e atenção para a cena. A afluência de adultos e crianças, inclusive nos horários mais incomuns para uma sessão de teatro, quase sempre lotada - como aquela de “O princípio do espanto”, com bonecos do Grupo Morpheus, às 22h de uma segunda-feira. Nem o cidadão que atendeu ao celular em voz tonitruante, por longos segundos, na apresentação de “Um dia ouvi estrelas”, da Companhia Teatro da Cidade, no palco de Palmeira, o município vizinho, demoverá a imagem de um espectador local formado ao longo dos anos. É um tesouro do qual o Fenata pode se orgulhar, a postura da plateia e sua qualidade aferida num “monólogo” não-verbal de um boneco e seu manipulador transcorrido sob profundo silêncio e emoção.

Antagônica a esse cenário é a ausência de núcleos artísticos com trabalho continuado. O Grupo Sete Companhia de Teatro mostrou “7 véus”, produção à qual não pude assistir, resultante de curso livre deste ano vinculado à Universidade Estadual de Ponta Grossa. É pouco, diria mesmo constrangedor, diante do patrimônio histórico imaterial que o Fenata representa não só em nível regional, mas nacional, basta citar os artistas que já passaram pelo encontro anual desde 1973: Paschoal Carlos Magno e o Teatro do Estudante Brasileiro, Henriette Morineau, Bibi Ferreira, Grande Otelo e Paulo Autran.

Num encontro que tive com estudantes de Jornalismo na UEPG, jovens em sua maioria inclinados ao jornalismo cultural, falamos desses paradoxos na terra do Fenata, décadas de agito cultural que não irradiam em práticas continuadas no campo da pesquisa e da criação artísticas. Ou mesmo num departamento de artes cênicas na UEPG. A iniciativa louvável do Festival brotada no âmbito da universidade carece, quem sabe, pelo da perspectiva deste interlocutor de fora, de um protagonismo mais efetivo da própria UEPG. Como o fazem suas colegas Universidade Estadual de Londrina, com o Festival Internacional de Londrina, há 40 anos, e Universidade Regional Blumenau, com o Festival Internacional de Teatro Universitário, há 23 anos. São eventos que maturaram sua identidade e passaram a provocar o meio das artes cênicas, quer brasileiro ou estrangeiro. A ousar o espírito transformador da cultura inerente à educação e à cidadania.

A proximidade da 40ª edição pode ser ocasião propícia ao Fenata para repensar o seu formato, conclamar as secretarias estadual e municipal de Cultura a assumir seus papeis em termos de políticas públicas, ou ausência delas, e fomentar o teatro, formar artistas e incentivá-los com atitude e dignidade que essa arte merece, como prova o festival ano após ano. O sistema do teatro brasileiro passou por grandes mudanças nesta década, vide os mecanismos federais ou leis que permitem chamar a iniciativa privada a contracenar com a arte e a cultura. Talvez tenha chegado a hora de o Fenata ir à boca de cena com mais convicção do talento que seu público e sua história o credenciam. MERDA!

 


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